O Encontro das CEBs do Regional NE II, vivido nos dias 10, 11 e 12 de abril de 2026, foi mais que um momento de formação, foi uma experiência de fé encarnada, de encontro profundo com o Jesus de Nazaré que caminha com o povo.
A partir da reflexão conduzida por Padre Aquino Júnior, fomos convidados a mergulhar no seguimento de Jesus não como teoria, mas como modo de vida. Com palavras simples, mas profundamente provocadoras, ele nos recordou que “sem Jesus, Cristo não tem carne”, ou seja, não existe fé verdadeira sem encarnação, sem compromisso com a realidade, sem presença no meio dos pobres.
Seguir Jesus é assumir seu projeto, viver a causa do Reino de Deus, atualizar no hoje o seu jeito de ser e de amar. Nele, a Palavra se fez carne, entrou na história e habitou o chão da vida. É justamente esse o caminho que somos chamados a trilhar: viver uma fé concreta, com sabor, comprometida com a realidade e expressa no cotidiano. Nunca foi fácil viver o Evangelho, mas é nesse mundo, marcado por tantas contradições, que a nossa fé precisa se tornar presença viva e transformadora.
É dessa experiência encarnada que brota o seguimento de Jesus, que nos conduz à missão. E missão, para nós, é participar da construção do Reino de Deus, onde o amor se traduz em direito e justiça para todos. Trata-se de um chamado exigente, pois nos convida a amar, inclusive aos inimigos, não por mérito ou por bondade, mas porque essa é a vontade de Deus. Um Deus que não responde ao mal com o mal, mas que ama porque é bom e nos ensina a fazer o mesmo. Assim, ao assumirmos esse caminho, vamos compreendendo, de forma cada vez mais profunda, o sentido do amor misericordioso de Deus.
Em Jesus de Nazaré, não encontramos um amor distante ou seletivo, mas um amor que se inclina, que se aproxima e que se compromete com a dor humana. A misericórdia, longe de ser uma fraqueza, revela-se como uma força que restaura, ternura que devolve dignidade e fidelidade que jamais desiste de ninguém. O amor misericordioso de Deus tem rosto, tem gestos, tem escolhas concretas. Ele se manifesta quando Jesus toca os intocáveis, quando olha nos olhos daqueles que foram invisibilizados, quando interrompe caminhos para escutar quem sofre. É um amor que não pergunta primeiro pelo mérito, mas que reconhece a necessidade. Um amor que não exclui, mas acolhe, que não condena, mas oferece sempre a possibilidade de recomeço.
Além disso, esse amor tem também um caráter profundamente transformador, pois rompe com as lógicas do mundo que classificam, hierarquizam e descartam, uma vez que ao colocar no centro os pobres, os pecadores, os doentes e os marginalizados, Jesus revela que, para Deus, ninguém é sobra. Pelo contrário, são justamente esses que se tornam prioridade do seu reinado.
A misericórdia, assim, não é apenas sentimento, é uma prática. Quando Jesus cura, não é apenas o corpo que é restaurado, mas toda a vida da pessoa, sua dignidade, sua relação com a comunidade e com Deus. Quando perdoa, não é apenas uma falta que é apagada, mas um novo caminho que se abre. Quando senta à mesa com os pecadores, não é apenas uma refeição, mas um gesto profético que anuncia que todos têm lugar.
E é a esse mesmo dinamismo que somos chamados a viver. Nas nossas comunidades, a misericórdia ganha corpo quando acolhemos quem chega, quando partilhamos o pouco que temos, quando insistimos na esperança mesmo diante das dificuldades. Dessa forma, ela se faz presente nas pequenas atitudes do dia a dia, na escuta paciente, no cuidado com os mais frágeis e na luta por justiça. Diante disso, viver segundo o Espírito de Jesus é deixar que esse amor molde nossas escolhas, nossas relações e nossa missão. É aprender a olhar o mundo com os olhos de Deus, a sentir com o coração de Deus e a agir com as mãos de Deus.
Jesus, mesmo ungido com Espírito de poder, passou pelo mundo fazendo o bem, vivendo em total coerência entre o que anunciava e o que realizava. Seu amor, profundamente misericordioso, colocava no centro os pobres, os excluídos e todos aqueles que tiveram sua dignidade ferida. Em cada gesto, ele nos mostra que o Reino de Deus acontece onde a vida é cuidada, reerguida e reintegrada. Assim, quando Deus reina, todos têm lugar à mesa. Por isso, nossa experiência de fé não pode ficar restrita ao interior da Igreja, mas precisa transbordar em atitudes concretas que fecundem o mundo com o amor de Deus.
Essa é a nossa missão como povo das CEBs, fazer com que esse amor alcance, sobretudo, os últimos deste mundo. Somos então chamados a reconhecer no outro, e também na criação, a presença de Deus que clama por cuidado, respeito e compromisso.
Em resumo, foi um encontro marcado pela simplicidade, pela partilha e pela profundidade. Um verdadeiro reencontro com o Jesus da caminhada, aquele que se revela no rosto do povo. E também um encontro com a beleza de uma Igreja viva, que resiste, sonha e luta. Com gratidão, seguimos firmes, alimentados por essa experiência, certos de que: vida vivida com Jesus é vida vitoriosa mesmo se crucificada.
Luana da Silva Ferreira
Comunidade Nossa Senhora de Guadalupe – Sítio
Cruz
Diocese de Garanhuns – PE
Regional Nordeste II